Entrevista ao Diretor

por Sofia Alexandra
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Entrevista ao Director do Agrupamento, Prof Nuno Reis, conduzida por Sofia Clemente e Tatiana Medeiros com o apoio do Prof. Joaquim Marques

Chegou ao fim este ano lectivo de má memória. As recordações que deixa, se não as queríamos ter não deixarão no entanto de fazer parte da nossa vida.

Na confusão deste presente incompreensível em que fazemos por o entender as perguntas sucessivas ficam com respostas indefinidas ou suspensas.

Nestas alturas perturbadas procuramos ainda mais as palavras e o conhecimento de quem decide sobre essa nossa vida.

Por isso fomos ouvir o nosso Director, Prof Nuno Reis sobre o que se passou e o que se vai passar nas nossas escolas.

JS? – No fim deste ano lectivo tão estranho e difícil que balanço faz? O mais e o menos?

Prof Nuno Reis – Para começar foi um ano onde a gestão das escolas do Agrupamento se fez durante mais tempo sem alunos do que com eles…

O que mais me impressionou foi a adesão, o apoio de toda a gente envolvida. Foi extraordinário o apoio que senti por parte de toda a comunidade escolar, e particularmente de pais e encarregados de educação. Faço um balanço positivo e se é um trabalho por vezes ingrato e solitário com muito sacrifício da vida familiar ele é também extremamente gratificante, pelo apoio que tive.


O aspecto negativo é evidentemente a situação de pandemia por que passamos. Fazer a gestão do agrupamento nestas condições foi uma tarefa muito pesada. Mas se do mal se pode tirar bem, registo a profunda humanidade e solidariedade que encontrei por parte de toda a comunidade.

JS? —Com a abertura das escolas a poucas semanas do fim do ano lectivo muitas pessoas, incluindo alunos e pais, ficaram com a impressão de que tal decisão não passava de uma experiência, onde os alunos faziam o papel de cobaias. Partilha da mesma opinião? Acha que foi uma decisão precoce?

Prof. Nuno Reis — No geral, nós pouco sabemos acerca de toda esta doença, e por isso na altura, quando a decisão foi tomada achei que sim, que estávamos a servir um pouco de cobaias. Visto que o maior objetivo do Ministério era abrir as escolas em Setembro, eles tentaram experimentar essa decisão através desta pequena abertura. E por melhores que fossem as intenções, foi uma tentativa da qual, eu acredito, os decisores não devem fazer um balanço muito positivo.

JS? — Como descreveria o comportamento da comunidade, particularmente, dos alunos? Corresponderam às vossas expectativas?

Prof. Nuno Reis — Eu acho que não foi muito diferente daquilo que se esperava. Há uma coisa apenas que me ainda me mete muita confusão e que é, quando eu chego à escola, começo a ver alunos que se vão aglomerando à entrada da mesma e estão ali com um à vontade enorme , sem máscaras, sem qualquer tipo de preocupação. De resto, acho que o comportamento tem sido positivo, pois, assim que entram na escola, respeitam as regras e colocam as máscaras. Tem sido um comportamento exemplar.

Em relação às aulas online, eu fiquei muito agradado com alguns aspetos, por exemplo, nos mais novos os problemas disciplinares ficaram resolvidos à partida. De uma forma geral, gostei. Outro aspecto que me surpreendeu bastante foi, através das aulas em casa, terem sido lecionados conteúdos e estes terem sido assimilados pelos alunos.

JS?— Já mencionou várias vezes os Encarregados de Educação. Como reagiu a todo este apoio?

Prof. Nuno Reis — Foi fantástico, superou até as minhas expectativas. Aliás, a ideia da petição online que destinada a recolher fundos para comprar computadores para os alunos que não os tinham, veio da Associação de Pais. Quando me contaram até achei que não fosse levar a lado nenhum, mas acabou por ser fantástico. Geralmente estas petições ficam no mínimo 24 dias online, e a nossa, que era de cerca de 1200€, em 11 dias ultrapassou o dinheiro necessário e conseguimos atingir o nosso objetivo.

Aliás, ainda temos computadores disponíveis mesmo depois de atendermos a todos os pedidos.

JS? — Acha que esta situação da pandemia pode prejudicar a aprendizagem dos alunos? E se sim, como é que poderá haver uma recuperação?

Prof. Nuno Reis — Eu acho que, inevitavelmente, prejudicará, pelo menos, na equidade. Nós não a conseguimos garantir porque temos famílias com vidas muito complicadas e com esta situação toda, a nível social, tudo dificulta. Eu apercebi-me ainda mais das dificuldades das pessoas que passam por isto, pois, desde o início, que eu disponibilizei a nossa escola para ser uma escola de acolhimento, ou seja, para poder receber os filhos dos trabalhadores que estão nas primeiras filas do combate à pandemia e os dos serviços essenciais. Uma das tarefas que tivemos foi a disponibilização de almoços. Inicialmente, tínhamos cerca de cinco ou seis refeições diárias e, no final, os números andavam à volta das sessenta. Tudo isto se foi agravando quando as pessoas começaram a se aperceber que não tinham condições para salvaguardar as suas refeições e as dos seus filhos, o que cria uma maior dificuldade na equidade do tratamento dos alunos. Todo este conjunto de problemas reflete-se na aprendizagem dos alunos.

Em relação à compensação, está previsto as escolas abrirem entre os dias 14 e 17 de setembro e que as primeiras cinco semanas sejam de reforço e de recuperação do tempo perdido. Seria bom que fosse assim tão simples, porém eu ainda tenho muitas dúvidas sobre o modo como como vamos abrir. Atualmente, as nossas salas, garantindo algum distanciamento, não permitem que estejam vinte e oito, trinta, alunos no mesmo espaço, por isso, o ideal seria desdobrar as turmas. Para tal, é necessário o dobro dos professores e das salas, o que nós não temos. Outra ideia é reduzir a carga horária de cada disciplina, o que tem implicações de muita ordem. Ou então, fazer um sistema misto, em que metade da turma tem aulas presenciais, enquanto que os restantes, estão a ter aulas online trocando na semana seguinte ou de duas em duas semanas.

Estas cinco semanas seriam fundamentais se conseguíssemos aproveitá-las em pleno e estar todos na escola a fazer este trabalho de recuperação.

A escola é feita para os alunos, estes encontram-se em faixas etárias que necessitam de socialização e, apesar de haver muitas pessoas a gostarem das aulas em casa, esse método tiram-lhes parte dessa experiência fundamental na vida de qualquer criança ou adolescente.

Prof. Nuno Reis —Quero deixar um agradecimento a toda a comunidade escolar. Elogio a dinâmica criada por todos os agentes, professores, alunos, assistentes operacionais, assistentes técnicas, numa dedicação e esforço constantes.

Todos foram exemplares na colaboração.

Incluo neste agradecimento a Associação de pais, A Junta de Freguesia e a Câmara Municipal. Fica uma lição de Cidadania. A disciplina de Cidadania é a disciplina que mais sai reforçada neste 3oPeríodo

E se parece que a sociedade tende cada vez mais para o egoísmo, fico com a esperança de que as novas gerações recuperem os valores de solidariedade, conforme demonstram nesta situação. Estou convicto de que se habitualmente os pais corrigem os filhos, iremos tirar daqui a lição contrária.


A solidariedade foi o valor mais forte que apreendi desta situação.

Termino agradecendo a oportunidade que o vosso magnífico projecto jornalístico me deu de me dirigir à comunidade escolar.

Agradeço o vosso trabalho exemplar.

E foram estas às respostas que numa altura precisa de indefinição quem nos dirige quis deixar. Obrigado professor Nuno Reis pela sua disponibilidade

Fotografia de Maximilian Scheffler no Unsplash

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