Gavetas de papéis

por Catarina Alexandre
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Buscamos em belas palavras as molduras para grandes momentos, e, na verdade, os grandes momentos, por vezes, agradecem palavras simples ou silêncios. No entanto, até os silêncios vivem das palavras que não são ditas.

As palavras e a sua escolha podem ser feitas de forma crua, pensada, artificial ou banal, mas precisamos sempre delas. Por vezes, tropeçamos nas palavras, elas ganham um sentido que não é o nosso, e vão por ali sempre em frente aos trambolhões até esbarrar contra alguma coisa ou contra alguém.

Escrever cura, mas também abre feridas. Escrever é formalizar um contrato entre o “eu”, o “tu” e uma alma. Ao desenhar as palavras, desenhamos verdades e falsidades e isso tem a seriedade de formalizar um contrato fechado, por isso cura, mas por isso pode também magoar.

Quando procuramos escrever a Verdade, o papel é imaculado e caminhamos devagar, escolhemos, hesitamos, trocamos esta palavra por outra, porque queremos ir rente à pele, aninhados no peito. Quando procuramos a Falsidade, o papel é trampolim, levantamos voo, colocamos as palavras em bicos de pés, espreitamos o que está além e aterramos o mais longe possível. E todos sabemos que há dias de ninho e dias de voo picado. Assim a escrita, mais do que curar ou magoar, revela-nos. Ficamos despidos ou caricaturados, por isso também enchemos gavetas de papéis e não mostramos tudo o que escrevemos, porque escrever é, simultaneamente, um ato íntimo e exibicionista. 

As palavras criam, reproduzem, dizem, contam, recontam, exorcizam, louvam, são pontes para fora e para dentro de cada um de nós. Quando as dizemos alto, baixo a gritar ou a sussurrar, elas voam, passam, desaparecem…, mas ficam na memória. Se são palavras escritas e lidas têm um enorme perigo, ultrapassam a memória e tornam-se Eternas.

E assim as nossas gavetas de papéis não têm só os nossos rabiscos escritos ao acaso ou intencionais, têm também as cartas que os nossos avós nos escreviam, os bilhetes de amor que nos entregavam, os postais de um local que alguém visitou, um recado que a mãe nos deixou num dia banal, um bilhete do pai num dia especial. E por que razão estes papéis escritos e velhos continuam a ser importantes? Porque num dia, alguém teve a coragem de os escrever, celebrando um contrato Eterno.

Lurdes Augusto

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Curriculum: Maria de Lurdes Augusto. Professora de Português há 26 anos. E ensinar será sempre a sua missão. Tem outras paixões, o teatro, a poesia, os direitos das crianças, a leitura e claro a escrita.

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