Entrevista com o Diretor do Agrupamento a propósito do projeto Escola + Humana

por Equipa Já Soubeste?
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No final do 1º Período Letivo decorreu em todas as escolas do Agrupamento uma campanha de distribuição de alimentos que foram angariados por estruturas de diversa ordem, professores e funcionários mas sobretudo pelos alunos.

A campanha integrada no Projeto Escola + Humana, apoiado pelo grupo disciplinar de Filosofia, teve nas Professoras Ana Paula Sousa e Isabel Martins os dois mais fortes pilares na organização e desenvolvimento da campanha.

O Já Soubeste? tem publicado diversos apontamentos de reportagem, testemunhos e entrevistas que funcionando como peças de um puzzle, darão aos nossos leitores no final uma imagem completa e cremos objetiva da importância desta campanha.

Hoje editamos uma entrevista com o Diretor do Agrupamento, Prof Nuno Reis

 Entrevista com o Diretor do Agrupamento a propósito do projeto Escola + Humana

Já Soubeste?-  Introduzindo o tema; Queríamos uma apreciação global, uma avaliação daquilo que foi o projeto Escola + Humana.

Diretor- Se vocês conhecem o meu projeto, que foi, no fundo, o projeto que fiz para a minha candidatura, e que ficou, com os devidos ajustes, como projeto educativo do Agrupamento 2020/2023, que se chama “Escola, espaço de Cultura”. O que ele reflete é muito mais que o seu nome, tem a ver com a forma de abordagem na educação e é também aquilo que eu penso sobre a educação no séc. XXI. Esta não se pode reger apenas pela transmissão de matérias, conteúdos de cada uma das disciplinas, em avulso onde os alunos vão recebendo informação e depois têm essa informação para o resto da sua vida. Este era o ensino em que eu e os professores tivemos, mas agora pede-se muito mais da escola e do ensino. É por isso que existe aquela figura, que muita gente não entende para que serve, que é a definição do perfil à saída da escolaridade obrigatória. Falamos muitas vezes sobre o perfil que queremos dos alunos e é aqui que está a chave de tudo, é aí que temos a educação do séc. XXI. A nós não nos interessa transmitir só conteúdos, é claro que os conteúdos são muito importantes, mas acima de tudo, o que nós temos de transmitir aos alunos são princípios, valores, e quando falamos de espaço de cultura, há princípios e valores que consideramos que são cultura. Neste projeto que reflete a nossa cultura, é aquilo que nós queremos transmitir, os professores responsáveis por eles, a professora Ana Paula Sousa w a professora Isabel Martins interpretaram, na plenitude, aquilo que eram os objetivos do nosso projeto. Se eu tiver de eleger, até ao momento, o melhor projeto que definiu, neste já quase dois anos, aquilo que é o projeto educativo e aquilo que eu gostava que fosse o projeto educativo, é este. Tem todos os valores, todos os “condimentos”, que são necessários à repercussão do nosso projeto educativo. É um projeto solidário. A solidariedade é um dos valores que eu acho fundamentais neste momento para as vossas gerações. É uma obrigação das gerações mais velhas transmitir-vos, as questões de solidariedade, logo seguidas das questões ecológicas. Todas elas estão muito interligadas. Este projeto teve toda esta preocupação. Nós vivemos cada vez mais tempo.  Nas gerações anteriores, por exemplo a dos meus sobrinhos, cultivámos muito a competitividade entre eles e então, a tendência que houve nos jovens foi fecharem-se sobre si próprios e concentrarem-se em si. Eu acho que a vossa geração está a inverter essa tendência. Estamos a assistir à inversão desses valores e eu vejo isso de bom grado. Eu acho que a vossa geração vai ser capaz de fazer coisas absolutamente fantásticas a todos os níveis. Começando pela questão ecológica, em que a minha foi horrível, não fizemos aquilo que devíamos ter feito. Começámos a apercebermo-nos dos problemas e não fizemos nada, antes pelo contrário, agravámo-los. Por isso tentamos que sejam vocês a inverter estas coisas. Da mesma forma que existem estas questões ecológicas, nós também, em termos de solidariedade e de problemas sociais, se passa a mesma coisa. Deixámos de ser solidários, basta ver como é feita a distribuição da riqueza, as pessoas preocuparam-se mais em enriquecer do que considerar quem está ao seu lado. Isso trouxe-nos problemas sociais extremamente graves que se não forem rapidamente invertidos, ganharão maior gravidade. Não me interessa viver num palacete se ao meu lado tenho bairros a perder de vista, de gente pobre. Há-de haver um momento em que eles se revoltarão contra mim e contra todos os que são como eu. É por isso que as questões de solidariedade e de partilha são fundamentais. Há uns dois ou três anos, o meu filho, tinha um defeito horrível que era; se vinha um amigo cá a casa, ele não emprestava as coisas porque dizia: “Ele vai estragar!”. E isto foi uma batalha enorme que tive com ele porque era muito agarrado às coisas. O meu filho não estragava nada se nós lhe dizíamos que ele tinha que ter cuidado com as coisas. Depois se vai lá o amigo e estraga, ele vai ter uma reação adversa ao amigo. Ele teve de trabalhar connosco este e outros valores. Teve de perceber que há pessoas diferentes dele, que tratam as coisas de maneira diferente e que isso não lhe dá o direito de impedir que cheguem às coisas. Ele teve de ser trabalhado, e é isso que a escola deve fazer e ser, ser um veículo desses valores como o valor da partilha. Se se disser: “Ah, é muito bom partilhar.” Mas depois vocês veem que os bons empregos são para os que têm as melhores notas, os bons cursos para quem tem melhores notas …então partilhamos o quê? O meu conhecimento? Acham que não se for para que o parceiro tenha melhores notas que e fique à frente. O trabalho de valorização da escola é mesmo este. Temos que ensinar os jovens para que eles sejam melhores que nós e saibam ajudar os outros. Todo este discurso está basicamente refletido no nosso projeto educativo. Nunca falei da Escola + Humana, mas no fundo eu estive sempre a falar da Escola + Humana porque ela tem todos esses valores, todos estes conceitos.

Quando a professora Ana Paula de Sousa e a professora Isabel Martins vieram ter comigo e me falaram neste projeto eu pensei: “O projeto é fantástico, mas elas em menos de 15 dias vão-se fartar… Isto vai-lhes dar um trabalho imenso. Isto vai ser um buraco porque vamos acabar com meia dúzia de cabazes e elas exaustas, não vão conseguir fazer mais.” Fiquei muito espantado com a dinâmica das professoras, e refiro também o professor Joaquim Marques, que acompanha o projeto no domínio da informação. O que é verdade é que, a certa altura, fui-me deparando com algo que eu não achava possível. Quando vi a dimensão do que estava a acontecer foi uma coisa que me surpreendeu. Todo o envolvimento dos alunos, dos professores, de toda a comunidade educativa foi algo que eu, em tempo algum, esperaria testemunhar. Uma vez quando ia comprar o jornal do dia a uma papelaria no Centro vi uma caixa e um Cartaz que diziam Escola + Humana, e depois comecei a reparar em mais lojas que tinham estas coisas, imaginem qual não é o enorme orgulho ao dizer que não sou só professor do Agrupamento, sou o seu Diretor. Eu a única coisa que fiz foi dizer que podiam avançar e que gostava do projeto. É um orgulho enorme.

Ontem estive num webinar, já que era o Dia do Estudante, onde não só participei eu, participaram também colegas vossos do 12º ano, e as minhas irmãs, que também são professoras. Diziam-me no final que os nossos alunos eram espantosos e que têm uma cultura geral, um conhecimento das coisas, uma forma de encarar a escola, uma forma de falar e de estar que merece ser elogiada

JS?-  Indo ao encontro daquilo que diz, nós, no início do projeto Escola + Humana, não estávamos à espera de que isto fosse como foi. Inicialmente íamos direcionar a nossa ajuda para instituições, mas depois numa aula a professora Isabel Martins disse que nos iriamos focar antes nas escolas do agrupamento e perguntou-nos que escola queríamos apoiar.

Nas nossas iniciativas uma vez um senhor chegou-se a nós e deu-nos dinheiro para a causa, ao invés de doar alimentos. Foi muito gratificante…Depois no último dia chegar às escolas e as diretoras a receberem tudo com muito agrado, deixou-nos muito contentes. Foi e é sem dúvida um projeto que não pode parar. Desenvolveu em nós muitas características como a responsabilidade e a independência, a um nível que muitos de nós se calhar não tínhamos. Todo o apoio da direção e dos professores foi incrível. Tudo isto vai ao encontro do lema do agrupamento: “Todos juntos conseguimos”. Eu acho que estre projeto foi fantástico.

Diretor- Tens toda a razão! No fundo é isso mesmo que eu quis dizer. Crescemos todos, porque não foram só os alunos, nós os professores, nós a direção, ao ver esta dinâmica, aprendemos muito, sem dúvida.

JS?- E é engraçado porque nós tínhamos um ou outro professor que nos dizia: “Porque é que vocês estão a fazer isso?”,” Isso não vos dá entrada na faculdade.”, “Vocês não têm exame de cidadania.” Felizmente foram raros, mas nós, mesmo a ouvir isto, não parámos. Num currículo, e para as universidades de renome lá fora, é mesmo isto que eles pedem, envolvimento em atividades deste género, solidárias.

Diretor- Vocês, alunos e professores, entraram numa espiral tão grande que eu achava que iam dar em doidos, trabalhavam sem parar, sempre a construir. E isto acaba tudo na distribuição do excedente por parte da Junta de Freguesia! Acho que foi um projeto brilhante e eu sem ter nada a ver com ele acabo por ter um orgulho gigante de ter acontecido no nosso Agrupamento. A única coisa que eu disse foi: “Sim, avancem!” A dinâmica foi toda vossa, a motivação incrível… Mas nem todos os projetos resultam desta forma, muitas vezes começamos projetos que não têm continuidade ou que ficam concluídos apenas nos objetivos mínimos. A Escola + Humana ultrapassou todos os objetivos. Os professores conseguiram motivar todas ou quase todas as turmas de Secundário e tiveram uma aderência enorme que depois extravasou pela Portela fora. Incrível mesmo!

Fotografia por: Inês Maciel

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