O Amor: Parte 1

por Joaquim Marques
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A pedido do nosso coordenador, o professor Joaquim Marques, neste artigo vamos fazer uma abordagem um pouco diferente diferente ao tema das “Almas Gêmeas, sim ou não?”,   através de pontos de vista mais profissionais.

Contactámos, então duas pessoas, com duas profissões diferentes, para nos falarem um pouco mais sobre o assunto tão conhecido e discutido que é o amor.

Devido ao tamanho de cada resposta vamos dividir o artigo em 2 partes, e esta que estás a ler agora é da opinião da psicóloga Carla Moita, a quem agradecemos muito a sua colaboração.

Esperemos que gostes!


O AMOR 

O que é, afinal, o Amor? Será que todos conseguimos sentir amor? E de onde é que vem essa capacidade? Que tipos de amor se sente? Será para toda a vida? Há perguntas para as quais não há uma resposta simples, certa ou objetiva, sendo claro que falar sobre Amor é tão complexo quanto senti-lo. 

O amor parece que é, desde logo, um processo biológico. Do ponto de vista da ciência, o Amor está no nosso corpo, que, aliás, é uma máquina fabulosa. Idealizamos que o nosso coração bate mais forte quando amamos, mas de facto é no cérebro, pelo sistema límbico, que as emoções acontecem, desencadeadas por estímulos internos ou externos. E são as emoções que geram os sentimentos e se encontram intimamente associadas aos afetos. 

E falar de afetos é falar de Relações, porque a nossa sobrevivência psicológica funda-se nas relações interpessoais que, ao longo da vida, se estabelecem e são condicionadas e moldadas pelo contexto ou ambiente que as envolve (família, escola, trabalho, comunidade, etc.). Podemos então deduzir que o relacionamento interpessoal implica o compromisso com um conjunto de normas comportamentais que orientam as interações entre pessoas, como por exemplo, saber ouvir, saber falar, saber valorizar, saber a hora certa de elogiar ou estar disponível para desenvolver os pontos fracos e fortalecer os pontos fortes estimulando-os ao crescimento. A afetividade facilita a comunicação e promove a união, sendo a base da dinâmica nas interações, nas trocas, na busca e nos resultados. 

E, obviamente, o Amor, sendo uma expressão de afeto, é igualmente uma construção social. As relações amorosas são, seguramente, condicionadas a normas sociais e a contextos situacionais sejam eles históricos, culturais, espaciais e, ou, temporais. 

Mas não obstante tamanha complexidade com que podemos analisar o Amor, seja pela perspetiva biológica, psicológica ou social o Amor é, sempre, um estado emocional determinado pela capacidade de as pessoas estabelecerem relações empáticas umas com as outras, entre família, com amigos ou até mesmo por desconhecidos. 

Na verdade, considero mesmo que o segredo do Amor, está na Empatia, a habilidade de compreendermos e, sobretudo, aceitarmos o outro, permitindo uma identificação com a sua realidade e olhando às suas necessidades, sem julgamentos nem preconceitos, admitindo em nosso universo psíquico que o outro existe na sua singularidade e para além das nossas diferenças. Pelas palavras do Psicólogo Carl Rogers: “ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.” 

Acredito que é a empatia, expressa através da sensibilidade e intuição, que faz acontecer o click, o tal, que nos faz querer aproximar de alguém, despertando o interesse no conhecimento e a atenção por aquela pessoa. A empatia começa pela aceitação e é com base nesta premissa que nos conseguimos dispor ao Amor. Pela aceitação. 

Aceitar alguém tal como é, com respeito, admiração, tolerância e sem reservas é a essência do Amor, porque cada pessoa com quem convivemos oferece uma oportunidade de aprendermos e, claro, com essa interação, ensinarmos também. E nessa aceitação as diferenças são normais porque tem de haver espaço para opiniões próprias e, sim, também é permitido discordar porque as discussões, quando são respeitosas, podem ser bastante enriquecedoras para os intervenientes. 

Há, de facto diferentes tipos de Amor e diferentes formas de o vivenciarmos. Dos nossos primeiros vínculos afetivos surge o amor pela família, depois com o estabelecimento das nossas relações sociais, em regra a partir da entrada para a escola, estabelecem-se os laços de amor com os amigos e mais tarde, com a transição para a vida adulta, acontece o amor entre casal. 

Segundo algumas perspetivas da Psicologia, num relacionamento amoroso, uma pessoa pode também sentir diferentes tipos de amor durante a sua vida, como por exemplo, o amor fascínio (paixão), o amor platónico (intimidade), o amor vazio (compromisso), o amor tolo (compromisso e paixão), o amor romântico (paixão e intimidade), o amor sociável (intimidade e compromisso) ou, a sua forma mais evoluída, completa e duradoura, o amor consumado (paixão, intimidade e compromisso), mas independentemente da definição de conceitos e teorias que lhe possa ser aplicável, o Amor experiencia-se de facto sob diferentes formas e intensidades, passando ao longo da nossa vida por várias transformações. E é normal que assim seja! 

Interessante seria termos a certeza de que o Amor é, mesmo, para toda a vida. Mas não me parece que seja assim tão garantido. Tal como vamos crescendo e amadurecendo, também vamos moldando a nossa personalidade e modificando a forma como vemos e experienciamos o mundo e nos relacionamos com os outros. Neste processo de desenvolvimento e transformação pessoal, a capacidade de aceitação do outro e de estabelecer (ou manter) a empatia, pode, como consequência, sofrer alterações, atenuar ou até desaparecer. 

Acima de tudo, o Amor começa e acabe em nós. Aceitemo-nos como somos e seremos certamente capazes de aceitar o outro e de o amar. Na verdade, o importante não é saber o que é o Amor mas sim saber senti-lo. Com os estímulos, com a relação, com a empatia e com a aceitação. 

«O amor não se vê com os olhos, mas com o coração.» William Shakespeare 

Carla Moita, Psicóloga

Foto de Everton Vila no Unsplash

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