Manhunt-Unabomber

por Francisco Raposo
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Quando acabamos de ver “Manhunt-Unabomber” não temos como negar aquilo que é evidente: simpatizamos mais com o terrorista do que com o polícia.

Para quem andou mais distraído, ou não liga muito a estas coisas, posso contar-vos que cresci com as histórias e o mito de Ted Kaczynski, o Unabomber; que li sobre as suas encomendas-bomba quando era miúdo; e que o seu “sketch” policial se tornou numa imagem icónica do mundo popular. Tão icástica que até t-shirts vendia entre os mais jovens e subversivos. Mais tarde, já neste século, recordo-me bem do dia em que os telejornais portugueses noticiaram a sua detenção após anos de buscas infrutíferas.

Assim sendo, os autores da série, sabendo que a história do terrorista é bastante conhecida, optaram por focar-se mais na narrativa da caça ao homem, mais especificamente no desenvolvimento da técnica da linguística forense; na sua história de vida e nas teorias sociais que defendia do que nos crimes que cometeu. Desta forma, Ted Kaczynski, o unabomber, acaba por ganhar uma inesperada dimensão de herói trágico; de um inadaptado que a sociedade transformou em monstro; de um mártir cuja ideia era alertar para os perigos do mundo moderno, um lugar onde o ser humano perdeu a liberdade e vive preso ao ferrolho do materialismo.

Toda essa tragicidade do Unabomber acaba por transformar o polícia que o investiga, um jovem profiler do FBI, num género de discípulo cuja intenção, a partir de determinada altura, passa apenas por derrubar o mestre e, no fim, salvaguardar que o trabalho de vida do Unabomber se eternize. O que me leva de volta à conclusão inicial: simpatizamos mais com o terrorista do que com o polícia. Sinal que a tarefa foi bem conseguida?
Imprescindível para quem gosta de policiais.

Artigo da autoria de Francisco Raposo, antigo professor da Escola Secundária da Portela

Foto de: Netflix

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