Spencer – O Espantalho e o Faisão

por Joaquim Marques
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Começo por um testemunho pessoal. Sempre tive um fascínio muito grande pela Princesa Diana. Não, não é poético, nem social, nem erótico, se alguém achava já que o afunilar deste início aí ia ter.
O que sempre me fascinou em Diana foi a precisão da sua individualidade, a tormenta da sua pessoa, inexcedível na sua humana ingenuidade. Um ser-humano fascinante.

Spencer, o filme de Pablo Larrain, é por este ângulo que a olha e a conta.

O filme tem motivo para tantas destas crónicas como tem partes que fazem dele um todo consistente na narração e no encanto. Ficam alguns rascunhos:

  • Argumento- Não vá ninguém à espera de encontrar no filme uma revelação biográfica, ou que ele desvende alguns dos supostos segredos de Diana que se amontoam. Alerta! Não é uma biografia! É um filme onde a palavra e a imagem se igualam, onde cada uma a seu tempo torna opressiva a exposição com igual intensidade. Onde os diálogos nos dão a entender, mais do que numa confissão, o espartilho convencional em que Diana Spencer viveu.
  • Realização – A imagem e a sequência narrativa sendo decisivas, às vezes nem nos deixam respirar. Não é narcísica, não reclama o essencial do produto estético. Está lá importante e decisiva, apoiada numa fotografia sublime, tanto como as palavras e a atuação.
  • Atuação- Magnífica a interpretação de Kristen Stewart. Considero que a clonização física que a atriz fez, encontra aos níveis emocional e psicológico a mesma intensidade e reconhecimento. Neste filme não há atores secundários. Há olhares, gestos e silêncios que esmagam e são opressivos. (Exceção e antítese do que afirmei Sean Harris, o chef e Sally Hawkins, a camareira). Os pequenos actores que representam William e Harry, Jack Nielsen e Freddie Spry, trazem-nos por contraponto a humanidade que a nós espectadores foi escondida e que em Diana definha. Nesse sentido as personagens dos dois rapazes atores, são também a redenção humana da sua mãe.

Inúmeras linhas poderiam ser sublinhadas para fazer antecipar o que nos espera ao sentarmo-nos em frente à tela. Ficam duas:

  1. Diana conduz perdida por estradas rurais à procura de uma chegada que não consegue aceitar e pergunta a ninguém, ou então à vida: “Where the fuck am I?”
  2. Quando consegue ser humana, só humana, e conversa com os filhos, instrói-os: “Aqui, o futuro não existe. Não há diferença entre o passado e o futuro.”

O título da crónica? Ah disso não falo, ia ser spoiler.

Prof Joaquim Marques

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