Passado e Presente

por Biblioteca
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Na escola do século XXI a biblioteca escolar deve participar ativa e comprometidamente no processo educativo, apoiando e/ou promovendo atividades de foro literário e cultural  essenciais para o desenvolvimento das literacias, de forma a ser também ela um pilar da missão da própria escola.

Nesta perspetiva educacional, cabe ao professor bibliotecário e à equipa da biblioteca escolar, para além da gestão da biblioteca como espaço em si, assegurar a integração da biblioteca nos projetos que fundam a essência da escola, nomeadamente através de uma colaboração regular com o jornal do nosso agrupamento.

Nenhum dos acontecimentos evocados neste artigo – Passado e presentefoi inocente.

Longe de almejar realizar uma procura intensiva que explicasse no seu todo o mundo em que hoje vivemos, selecionei apenas alguns momentos do passado, que me pareceram fundamentais para a compreensão do nosso presente. Consciente, no entanto, de que uma seleção é apenas um ponto de vista, possibilitado e condicionado  por um percurso pessoal e profissional.

Para o mundo que, desde 2020, enfrenta  uma grave, inquietante  e dolorosa pandemia, capaz de alterar os alicerces de todo o nosso viver, a entrada em 2021 foi festejada  com uma sensação renovada de esperança, de cura e de retorno. 

Quando o presente não nos é grato, tendemos a glorificar o passado, como não existem máquinas do tempo, é através dos livros, artigos e  notícias que habitam as nossas bibliotecas, sejam eles em suporte papel ou  virtuais, que  podemos viajar até outras épocas e refletir. O passado, esse, já não o podemos mudar, apenas lembrá-lo, revisitá-lo e com ele entender e procurar aprender. 

Comecemos então a nossa viagem, recuando um século e chamemos à memória o ano de 1921. 

Nesse ano, em Portugal, vivia-se o rescaldo de dois acontecimentos, diversos na essência, mas igualmente terríveis nas consequências: da gripe pneumónica, também chamada “espanhola” ou “bailarina”, que assolou o mundo entre 1918 e 1919 e da Primeira Guerra Mundial que teve lugar entre 1914 e 1918. 

A  pneumónica  causou  entre  60   e 100 mil mortes entre os portugueses. O primeiro surto chegou na primavera de 1918, mantendo-se até julho. O segundo apareceu em finais de agosto e durou até dezembro. Em maio de 1919, surgiu a terceira vaga e, segundo alguns autores, teria ainda existido um quarto surto no outono/inverno de 1919 e 1920. 

Apesar das diferenças que em termos médicos e científicos separam 1921 de 2021 Portugal e o mundo escudaram-se em estratégias muito similares. 

No entanto, em 1921, para agravar a situação na área da saúde, a pneumônica coincidiu com epidemias de varíola e tifo, em vários locais do país, o que sobrecarregou os hospitais que já estavam a funcionar com muitas dificuldades, desde a sobrelotação à falta de recursos materiais e humanos, havendo que encaminhar para outras estruturas, nomeadamente hospitais militares, escolas e conventos, muitos doentes.

Em termos puramente científicos, os médicos não chegavam a acordo sobre o diagnóstico da doença, no entanto, o nosso diretor-geral da saúde, Ricardo Jorge,  não teve dúvidas e declarou tratar-se do vírus da  influenza.

A  progressão  da  doença  acompanhava  os  deslocamentos  das  pessoas:  ela seguia  os  soldados que tinham tido licença para regressarem às suas terras; os trabalhadores rurais que iniciavam as colheitas de setembro (atividade tradicional que propiciava, grandes ajuntamentos); os marinheiros e pescadores na faina do mar; os veranistas que regressavam das férias.

Numa primeira fase da pandemia, o diretor-geral da Saúde não suspendeu  as feiras e festividades,  evitando assim o pânico e os prejuízos que daí resultariam para todos. 

Quando se verificou o agravamento da situação sanitária, nos concelhos publicaram-se editais musculados, com decisões e orientações precisas: encerramento de salas de espetáculo; proibição de procissões e cortejos fúnebres; fechamento de cafés e clubes; sepultamento  dos  cadáveres  no  prazo  de  24  horas  após  a  declaração  de  óbito;  reforço  da  higiene pública e privada; comunicação ao subdelegado de saúde de todos os óbitos causados pela pneumônica, para se proceder à desinfecção das  casas  dos  falecidos;  participação  ao  poder judicial de todas as transgressões das normas estabelecidas. 

Portugal  terá  sofrido  uma  quarta  vaga  de  pneumónica  no  outono/inverno de 1919 e 1920. Há notícias da existência de casos no país, tendo-se registado no distrito de Braga e Guimarães um grande número de óbitos já em fevereiro de 1920.

Em matéria de prevenção, os médicos defenderam um conjunto de medidas, algumas destas, muito familiares às preconizadas na atualidade: os ajuntamentos de pessoas deviam ser evitados a todo o custo; eram aconselhados cuidados redobrados com a higiene privilegiando compartimentos amplos, bem iluminados e ventilados; era reconhecido e recorria-se ao uso de máscaras e a determinados fármacos que tratavam de outras enfermidades, como a malária ou a sífilis (e.g. quinino); o isolamento dos infetados e o internamento obrigatório dos mesmos e cuidados com a alimentação. 

As farmácias, tentando socorrer todos, alargaram os seus horários de atendimento, mas muitas vezes não tinham as substâncias receitadas  para  tratar  a  doença.  Muitas  fecharam  porque  os  seus proprietários ou empregados também adoeceram.

Alguns apostavam na criação de uma vacina. 

A pneumónica propagou-se rapidamente e, como atacava sobretudo os jovens adultos,

com idades entre os 20 e 40 anos de idade,  agravou a situação dos estratos sociais mais desfavorecidos, numa sociedade em que a proteção social estatal dava os primeiros passos: durante a pandemia, desapareceram famílias inteiras e, consequentemente, aumentou a orfandade, que atingiu uma dimensão preocupante. Alguns diplomas legislativos publicados em 1919 tinham dado corpo à primeira tentativa de instituição de um sistema de seguros sociais obrigatórios. Previa-se a criação de uma entidade gestora de âmbito nacional – o Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios – para a concessão de prestações nas eventualidades de doença, invalidez, velhice, sobrevivência, desemprego e acidentes de trabalho. Todavia, por falta de condições políticas, esta legislação não viria a ser aplicada. 

Psicologicamente, o pavor causado pela doença, devido  ao  elevado  número de  mortes causado, sobrepôs-se mesmo ao  causado  pela  guerra.

A participação de Portugal na I Guerra Mundial agravara muito a situação política e socioeconómica portuguesa, que já era muito complicada. Em várias regiões do país a fome e a miséria alastravam. Foi necessário reforçar as sopas económicas e outras ajudas sociais para atender à situação desesperada de muitos.

Politicamente, mantinha-se uma situação de extrema instabilidade, endémica durante quase toda a I República, castradora de todo o desenvolvimento económico e social. Durante o ano de 1921 surgiram constantemente golpes e pronunciamentos, que tinham como consequência sucessivas demissões de governo, seguidas de formação de outros governos também eles de curta duração.

Assim, a 2 de Março tomava posse o 29º Governo, chefiado por Bernardino Machado, que durou apenas até 23 de maio, dia em que chefiado por Tomé de Barros Queirós se instaurou o 30º Governo, tendo este durado somente três meses, até 30 de agosto do mesmo ano.

Preparando-se a História de quase cinco décadas de um país, no dia 10 de Julho, realizaram-se eleições legislativas, tendo os liberais alcançado a vitória. António de Oliveira Salazar foi eleito deputado pelo Centro Católico.

No dia 14 de Agosto na senda das Comemorações da Batalha de Aljubarrota e consequente homenagem a D. Nuno Álvares Pereira, que tinha sido beatificado pelo Papa, regressam ao país os confrontos acerca da questão religiosa, com a realização de um comício anticatólico em Loures.

A 30 de agosto cai o governo e, chefiado por António Granjo, instala-se o 31º Governo que durará apenas até 19 de Outubro. Dia terrível em que se dá o atentado conhecido como Noite Sangrenta. António Granjo (presidente do Ministério), Machado dos Santos (vice-almirante), Carlos da Maia (oficial da Marinha de Guerra), Freitas da Silva (secretário do Ministro da Marinha), entre outros, são assassinados, enquanto o assassino de Sidónio Pais (presidente da República entre 1917 e 1918) é libertado e homenageado.

No dia 19 de outubro entra em funções o 32º Governo, chefiado por Manuel Maria Coelho, mas já em 5 de novembro o mesmo dará lugar  ao 33º Governo,  chefiado por Carlos Maia Pinto.  

A instabilidade governamental que mantém o desenvolvimento do país e a sua recuperação económica em suspenso permanece e, no dia 16 de dezembro de 1921 ocupa o poder o 34º Governo, que chefiado  por Francisco Cunha Leal, com representantes de todos os partidos, se manterá em funções até  fevereiro de 1922.

De muito positivo, durante 1921, a 22 de março, os oficiais de Marinha do Centro de Aviação Marítima, Gago Coutinho, Sacadura Cabral e Ortins de Bettencourt acompanhados pelo mecânico Roger Suberand voam até à ilha da Madeira, utilizando pela primeira vez o sextante.

Celebrando a bravura e o patriotismo, no dia 6 de abril chegam a Portugal os corpos de dois soldados desconhecidos, um morto na Europa, outro morto em África. São colocados no átrio do Parlamento para simbolizar a homenagem dos portugueses a todos os soldados mortos na Primeira Guerra Mundial.

No dia 18 de junho implementa-se uma Reforma do ensino secundário liceal. Desta reforma realçamos no capítulo VIII os artigos 89. 90. e 92 as indicações muito específicas referentes ao funcionamento e missão das bibliotecas escolares.  

Alargando a abrangência geográfica da nossa viagem conferimos que no dia 24 de janeiro se iniciou a Conferência de Paris, durante a qual os Aliados fixaram as indemnizações de guerra a pagar pela Alemanha. 

No dia 18 Março, o Tratado de Riga ou Paz de Riga, pôs termo à guerra entre a Polônia, a Rússia Soviética e a Ucrânia soviética sustendo a expansão do comunismo na Europa. É estabelecida uma fronteira permanente entre estes Estados que se manterá em vigor até à Segunda Guerra Mundial. 

Pelas suas contribuições para a física teórica e, especialmente, pela sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico (fundamental no estabelecimento da teoria quântica)  o prémio Nobel da Física de 1921 foi atribuído ao físico alemão Albert Einstein que desenvolveu a teoria da relatividade geral e se tornou conhecido no mundo pela sua fórmula massa-energia, E = mc².

A 24 Março realizou-se, no Mónaco, o primeiro encontro desportivo internacional para mulheres, os primeiros Jogos Mundiais Femininos, organizado por Alice Milliat e Camille Blanc em resposta à decisão oficial de excluir as atletas femininas dos Jogos Olímpicos de 1924.

Somando-se às brutais consequências sociais e humanas da Grande Guerra, a eclosão da Revolução Russa, fez aumentar  significativamente o número de refugiados na Europa e desencadeou  o debate sobre sua proteção, surgindo em 1921, por meio do Conselho da Sociedade das Nações, o primeiro Alto Comissariado para Refugiados, principalmente destinado ao apoio humanitário aos refugiados russos.

Apesar da Sociedade das Nações (organização internacional criada no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de assegurar a paz, pela interposição de organismos de negociação entre as potências desavindas)  ter surgido após proposta do presidente americano Woodrow Wilson, os Estados Unidos nunca foram membros da mesma  e a organização estaria condenada ao fracasso. Assim, a 12 abril o presidente norte-americano Harding anunciou que os Estados Unidos não podiam fazer parte da Sociedade das Nações.  

No dia 06 de dezembro de 1921 é assinado em Londres o Tratado Anglo-Irlandês que põe termo à guerra de independência da Irlanda, que durou de 1919 a 1921. É criado o Estado Livre Irlandês, uma nação independente de que fazem parte 26 dos 32 condados da Irlanda.

O primeiro plástico sintético foi desenvolvido no início do século XX e registrou um desenvolvimento acelerado a partir de 1920-21. Este material, relativamente novo, passou a estar presente em grande parte dos nossos utensílios.

Estavam lançadas as fundações do nosso presente. 

Propositadamente, termino este artigo repetindo-me:

O passado, esse, já não o podemos mudar, apenas lembrá-lo, revisitá-lo e com ele entender e aprender. Já o futuro – diz o povo – a Deus pertence. Mas como consubstanciar Deus sem a humanidade ? 

Bibliografia consultada

– Portaria nº 756/2009 de 14 de Julho. Acedido a 24-02-2021 em http://min-edu.pt/np3content/?newsId=3998&fileName=portaria_756_2009.pdf

– Esteves, Alexandra; Pinto, Silva. (2020). A gripe espanhola em Portugal: a construção da memória. O trabalho médico e a assistência hospitalar. Acedido em: 24 de fevereiro de 2021 em https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/75134/44475

– Evolução do sistema de Segurança Social (2015) Acedido em: 25 de fevereiro de 2021 em http://www.seg-social.pt/evolucao-do-sistema-de-seguranca-social

 – Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República 1910-2010. República nas Escolas Acedido em 25 de fevereiro de 2021 em https://centenariorepublica.pt/escolas/cronologia-1-republica/1921

– Diário do Governo 18 de junho de 2021  Acedido em 26 de fevereiro de 2021 em https://dre.pt/application/file/510738

– Cronologia da União Europeia Acedido em 25 de fevereiro de 2021 em https://europa.eu/learning-corner/eu-timeline/1921_pt

– Sociedade das Nações. Porto: Porto Editora, 2003-2021. [consult. 2021-03-01 09:43:46]. Acedido em 25 de fevereiro de 2021 em Infopédia [em linha].  https://www.infopedia.pt/$sociedade-das-nacoes

Armanda Oliveira Dias (Professora bibliotecária da escola Gaspar Correia)

Fotografia por Hadija Saidi no Unsplash

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