As árvores morrem de pé, mas os escritores não morrem – homenagem ao escritor Luís Sepúlveda

por Biblioteca
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Disse um um dia José Luís Borges “Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação.

Há dois anos, no dia 16 de abril de 2020, Luís Sepúlveda deixou-nos, vítima de um vírus que ainda nos ameaça, nos confina e reprime. Terrível ironia: Sepúlveda era um defensor acérrimo da liberdade. Mas, tal como Borges também salienta, as grandes obras são o veículo para a reencarnação, por isso, Sepúlveda não morreu nem foi silenciado.

Os valores essenciais que defendia, a liberdade, a igualdade, a defesa do ambiente continuarão connosco sempre que lermos um dos seus livros. E, são tantos esses livros, são tantas as suas histórias ou viagens únicas, entrelaçadas pela vida, feitas fábulas, romances, homenagens ou manifestos.

Nas fábulas que criou ou recriou, Luís Sepúlveda assume como essenciais na vida de todos nós os valores da amizade, sem espartilhos de espécie ou fronteira, da lealdade, da partilha e do compromisso, quer seja com Mix e Mex em História de um gato e de um rato que se tornaram amigos ou com o gato Zorbas e Kengah em História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar.

O Velho que Lia Romances de Amor deixa homenagem ao ferido mundo amazónico e ao seu amigo Chico Mendes, mas a sua luta em defesa da Natureza, da diversidade e da força da solidariedade continua com Afmau em História de um cão chamado Leal e, também, em Mundo do fim do mundo que nos faz refletir sobre a necessidade de proteção da fauna marítima, apelando simbólica e expressamente à denúncia da caça ilegal de espécies protegidas.

Os lugares, os povos e as viagens entre uns e outros, deslumbram-nos em Patagónia Express através da homenagem a um comboio que já não existe, mas que persiste vivo na memória dos homens e mulheres da Patagónia.

Enfrentamos e resistimos ao medo, à tortura aos crimes contra a humanidade durante a ditadura de Pinochet ou sob o nazismo, com Juan Belmonte, Verónica e Galinsky em O fim da história e Nome de Toureiro, mas a A sombra do que fomos faz as honras das memórias do exílio e dos ideais de Pedro Nolasco, Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda.

Poderoso, Sepúlveda, reconcilia-nos com a vida em As rosas de Atacama: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história”, lê-se numa pedra em Bergen Belsen.

Na sua critica à guerra, em O Poder dos Sonhos, a sua afirmação “Sonhamos que é possível outro mundo e tornaremos realidade esse outro mundo possível“, nunca foi apenas uma declaração de intenções.

Armanda Dias

Professora Bibliotecária da Escola Gaspar Correia

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